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Some sua voz contra o data center da Terranova
O que está acontecendo
A Fazenda Pau d’Alho, fundada há 230 anos, fica localizada às margens da rodovia Campinas-Mogi e fez parte dos principais ciclos econômicos do Estado de São Paulo, como açúcar, café e gado holandês. Trata-se de uma fazenda histórica do período colonial que poderá dar lugar a um data center para inteligência artificial1, operado pela Terranova2, empresa criada em 2025 e controlada pela gestora estrangeira Actis, que, por sua vez, integra o grupo internacional de investimentos General Atlantic.
O empreendimento avança sem transparência, sem avaliação rigorosa de seus impactos socioambientais e territoriais e sem a participação efetiva da sociedade nas decisões que afetarão Campinas.
Por que somos contra
Data centers são grandes infraestruturas físicas cujos impactos vão muito além da área diretamente ocupada, com alta demanda de energia e água, alterações territoriais e pressão sobre infraestruturas públicas. Apesar disso, sua expansão é frequentemente acompanhada por promessas de geração de emprego e narrativas “verdes” que minimizam seus impactos reais (greenwashing)3. Campinas corre o risco de arcar com os custos ambientais e energéticos desse empreendimento e comprometer parte de seu patrimônio histórico e de sua memória.
Preservação da memória histórica
O tombamento do casarão e das demais construções da Fazenda Pau d’Alho pelo Condepacc, não pode ser tratado como formalidade a ser contornada por “compensações” e promessas de restauro feitas por uma multinacional estrangeira. O vínculo entre escravidão, período colonial e formação econômica da região de Campinas não pode ser esquecido, e a preservação dos lugares de memória não pode ficar subordinada aos interesses econômicos de um empreendimento privado. E mais, a atividade do Data Center pode deteriorar o patrimônio arquitetônico da fazenda, como seu casarão histórico, que teve a participação de Ramos de Azevedo na sua construção.
Neocolonialismo
A Pau d’Alho tem origem como latifúndio erguido sobre mão de obra escravizada e concentração de terra nas mãos de barões do café. Hoje, essa lógica assume uma nova forma: grandes extensões de terra, recursos naturais e investimento público (energia, água, sistema viário) passam a servir a grandes grupos econômicos, majoritariamente internacionais, agora sob a forma de servidores e cabos, não mais de cafezais. Trocar o latifúndio agrário pelo “latifúndio digital” reproduz uma lógica colonial de apropriação do território e de suas riquezas sob uma nova roupagem tecnológica4.
Consumo de recursos naturais e aumento na conta de luz5
Data centers são estruturas de altíssima demanda energética e com impactos relevantes sobre o uso da água. Mesmo com sistemas fechados de refrigeração, estudos apontam para o crescimento do consumo hídrico do setor, inclusive de forma indireta na geração de energia. Há ainda um paradoxo: tecnologias que reduzem o uso direto de água podem aumentar o consumo de eletricidade6.
No caso de Campinas, o empreendimento poderá alcançar aproximadamente 400 MW de capacidade de TI, equivalente a cerca de 40% de toda a capacidade atualmente comissionada no Brasil7. A escala do empreendimento representa uma enorme pressão sobre o sistema elétrico e os recursos hídricos da região, numa bacia que já enfrenta desafios de abastecimento. Sem transparência e participação pública, recursos essenciais como água e energia passam a ser disputados com um empreendimento privado de enorme escala, com impactos que podem recair sobre o fornecimento e a conta de luz da população.
Poluição sonora
Data centers operam de forma contínua, 24 horas por dia, e seus sistemas de refrigeração, equipamentos e geradores geram ruídos constantes, que podem afetar a fauna local e a qualidade de vida das pessoas que moram em seu entorno. Esse é um impacto recorrente registrado em empreendimentos dessa magnitude ao redor do mundo, e que não pode ser desprezado pois pode alterar modos de vida e atividades produtivas locais8.
Ilhas de calor
Campinas já é a cidade do interior paulista mais vulnerável ao fenômeno das “ilhas de calor”, compreendidas como regiões urbanas mais quentes que o seu entorno. O município apresenta oito níveis de ilhas de calor, associados à expansão urbana, à impermeabilização do solo e à redução da vegetação, com temperaturas de superfície superiores a 34°C em algumas regiões.9
O problema também já vem sendo identificado como um impacto ambiental próprio da infraestrutura de data centers. Estudos recentes apontam que o calor residual gerado pode elevar as temperaturas ao redor das instalações. No Arizona (EUA), medições realizadas em quatro data centers encontraram temperaturas até 2,2°C mais altas nas áreas próximas dos empreendimentos.10 Em uma cidade que já enfrenta elevada vulnerabilidade ao calor, não se pode desconsiderar a possibilidade de agravamento das ilhas de calor pela concentração de infraestrutura computacional.
Soberania digital
Um data center operado por capital estrangeiro, a serviço de grandes empresas de tecnologia que hoje concentram o desenvolvimento de inteligência artificial, aprofunda a dependência do Brasil em relação a corporações e Estados estrangeiros no controle de dados, infraestrutura computacional e tecnologias estratégicas. Mas a soberania não se limita aos dados, envolve também o controle sobre o território, os recursos naturais, a energia e as decisões sobre seu uso. Ao colocar ativos e recursos estratégicos a serviço de interesses econômicos externos, um empreendimento dessa natureza caminha na contramão da soberania nacional.
Geração de empregos (mas temporária)
O prefeito de Campinas anuncia a geração de 3,6 mil empregos com o empreendimento, mas omite que esses empregos são em sua maioria temporários, concentrados na fase de construção do data center. Uma vez em operação, essas infraestruturas altamente automatizadas mantêm apenas uma pequena parcela dos empregos gerados durante sua construção, revelando a desproporção entre os enormes investimentos e recursos mobilizados pelos data centers e a geração permanente de postos de trabalho11.
Ao mesmo tempo, a legislação de Campinas permite conceder a empreendimentos desse tipo isenções e descontos em impostos e taxas municipais por até 12 anos. Ou seja, a promessa de empregos (a maioria deles temporários) pode servir de justificativa para abrir mão de recursos públicos por mais de uma década!
Contribuição técnica da LAPIN · Laboratório de Políticas Públicas e Internet
Referências
- g1 · Fazenda histórica de barão do café dará lugar a data center no interior de SP↩
- instagram.com/reel/DcTqdNXiUgd↩
- LAPIN · Inteligência artificial e data centers: a expansão corporativa em tensão com a justiça socioambiental (PDF)↩
- FAUSTINO, Deivison Mendes; LIPPOLD, Walter. Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. São Paulo: Boitempo, 2023.↩
- g1 · Como funciona um data center e por que ele pode consumir tanta energia e água↩
- nature.com/articles/s44359-026-00195-w↩
- datacenter.org.br · O Brasil atinge 1 GW de capacidade de TI comissionada no primeiro trimestre de 2026↩
- instagram.com/reel/DZrWAbnB4tY↩
- Correio Popular · No interior, Campinas lidera incidência de “ilhas de calor”↩
- ASME · Data Center Waste Heat as an Emerging Urban Thermal Hazard↩
- Tecnopolítica #152 · youtu.be/OpreEnASkgs↩
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